30/11/2016

Modalidade estimula intimidade com o local, além de desenvolver a comunidade e preservar sua originalidade

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Artesã do Vale do Jequitinhonha posa ao lado das tradicionais bonecas da região. Imagem: André Dib/Raízes

Em 2009, a consultora de comunicação digital Wans Spiess tirou o ano para viajar pela Ásia. Chegando a uma rodoviária do Camboja, Wans encontrou um cartaz do Stay Another Day, uma iniciativa adotada por diversos destinos pelo mundo que incentiva viajantes a permanecerem por mais tempo no local, explorando atrações que vão além dos pontos turísticos tradicionais.

Foi dessa maneira que a brasileira teve seu primeiro contato com o turismo de base comunitária, uma modalidade que oferece experiências mais íntimas com o destino, além de ajudar no desenvolvimento da comunidade local e na preservação de sua originalidade. "Tinha uma lista de opções e acabei fazendo bastante coisa. Até que percebi que nunca tinha feito isso no meu próprio país. Quando voltei ao Brasil, procurei por iniciativas que valorizassem esse tipo de turismo", relembrou Wans durante o Fórum Interamericano de Turismo Sustentável (Fits).

O evento, realizado em outubro na capital paulista, apresentou exemplos de destinos nacionais inspirados no turismo de base comunitária, como o roteiro que permite acompanhar o cotidiano das artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Nele, é possível se hospedar na casa de uma delas, dormir e fazer as refeições com a família da artesã, assim como acompanhar todo o processo de produção de objetos feitos com cerâmica.

A atividade turística tem papel fundamental na mudança da imagem da região, conhecida por muito tempo como Vale da Miséria devido à pobreza e escassez extrema, além de ter impacto direto na autoestima da população, na valorização da cultura local, no aumento da fonte de renda e no empoderamento feminino.

"Os homens saiam para colher cana-de-açúcar no interior de São Paulo e as mulheres ficavam sozinhas cuidando dos filhos na área rural. Até que elas começaram a brincar de mexer com o barro e, a partir do reconhecimento de que aquilo não é apenas uma decoração, mas sim uma expressão artística, levar os visitantes até lá é muito mais interessante e transformador do que apenas colocar esses objetos em uma loja de um centro urbano", disse Lucila Egydio, consultora da Vivejar, operadora que auxilia comunidades a criarem e gerenciarem roteiros de turismo de experiência. "Esse tipo de atividade faz com que as comunidades reconheçam o seu valor por meio do olhar do turista", completou.

Assim como os destinos, os visitantes também são transformados com essas experiências. "A grande diferença do turismo tradicional para o de base comunitária é a conexão que se cria com aquela realidade, é o despertar para as causas locais", afirmou Wans.

É o caso da Associação Mico-Leão-Dourado, que realiza um programa de ecoturismo e educação ambiental no Rio de Janeiro com o objetivo de conscientizar os visitantes sobre a importância da conservação da Mata Atlântica.

No roteiro disponibilizado pela instituição, é possível observar alguns dos 3,2 mil micos-leões-dourados em seu habitat natural. Nos anos 1970, esse número não passava de 200 animais da espécie. "Nossa missão é garantir esse patrimônio ambiental para as próximas gerações", afirmou Simone Hipólito, representante da associação.

Organizadora do evento, Paula Arantes relembra a primeira vez que viu um mico durante um passeio no Canadá. "Tive uma crise de choro de emoção por ter a oportunidade de ver uma espécie da nossa fauna e que eu nunca tinha visto na natureza no Brasil, porque na época ainda não existia um roteiro no qual você pudesse visitar e conhecer o mico. Realmente não acredito que haja um processo de transformação tão rápido como esse tipo de experiência", disse.

Paula também integra a equipe do Garupa, uma organização que fomenta ações e reúne dados sobre destinos de turismo de base comunitária. Uma das iniciativas da rede é o Guia do Brasil Autêntico, que compartilha informações sobre 11 destinos nacionais que privilegiam o uso de mão de obra e de fornecedores locais, que fazem uso consciente dos recursos naturais, que promovem e preservam o que é autêntico de cada lugar. Os roteiros do Vale do Jequitinhonha e da Associação do Mico-Leão-Dourado fazem parte do guia, que ainda oferece opções como o hotel de luxo Cristalino Lodge, localizado na Reserva Natural do Cristalino, no município de Alta Floresta, em Mato Grosso.

"Turismo sustentável não é turismo de caridade. O viajante não está ali para ajudar a comunidade, mas para ter um tipo de experiência mais intensa", disse Eduardo Cordeiro, representante da Garupa. "Muitas pessoas acham que turismo sustentável é sinônimo de dormir na rede, no meio do mato, ao redor de bichos, mas não é bem assim. É possível encontrar opções com diversos níveis de conforto, para atender os diferentes perfis de viajantes. Um exemplo é o Cristalino Lodge, que oferece uma experiência de alto padrão", afirmou.

 

Fórum Interamericano de Turismo Sustentável
Criado em 2004, o Fits surgiu como resposta a uma necessidade identificada pelas principais entidades ambientalistas de organizar um fórum de discussão sobre temas relacionados à sustentabilidade da atividade turística.

Nesta edição, o Senac esteve presente na mesa de abertura do evento, que abordou os desafios e oportunidades de atuação no setor. A instituição ainda realizou o lançamento oficial da pós-graduação a distância Inovação e Empreendedorismo em Negócios Turísticos Sustentáveis.

Saiba mais sobre a pós-graduação Inovação e Empreendedorismo em Negócios Turísticos Sustentáveis e conheça os demais cursos na área de turismo oferecidos pelo Senac EAD.

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